
A região vitivinícola de Lisboa tem nove denominações de origem. Três delas ficam a menos de uma hora do Rossio: Colares, Bucelas e Carcavelos. Juntas fazem menos vinho do que uma quinta média do Alentejo.
18 de Setembro de 1908
Nesse dia, uma carta de lei demarcou Colares e Carcavelos. Bucelas só foi demarcada em 1911.
São das regiões demarcadas mais antigas da Europa. À frente delas está o Douro, demarcado em 1756 pelo Marquês de Pombal.
A região à volta chamou-se Estremadura até 2009. Passou a Lisboa porque a Extremadura espanhola também faz vinho e o nome da capital viajava melhor.
Colares cresce dentro da areia
Colares fica entre a Serra de Sintra e o Atlântico, a 25 quilómetros a noroeste de Lisboa. É a região demarcada mais ocidental da Europa.
Ali a vinha planta-se em areia de duna. Para chegar à argila que segura a água, abrem-se covas de três metros e a raiz desce até lá.
A videira fica rente ao chão. O regulamento da denominação não deixa passar dos 40 centímetros de altura.
Contra o vento do mar, cada talhão é fechado por paredes de canas, pedra, zinco ou plástico. A vindima faz-se de joelhos.
As vinhas que a filoxera não apanhou
A filoxera chegou a Portugal em 1865 e destruiu quase toda a vinha do país. Desde então, quase tudo o que se bebe cá vem de videira europeia enxertada em raiz americana.
Em Colares não. O insecto não se desloca em areia solta, e as cepas ficaram de pé franco, na sua própria raiz. O regulamento obriga a isso: areia, sem enxerto.
A casta tinta é o Ramisco, documentado em Colares desde 1790. Um tinto da denominação leva no mínimo 80 por cento de Ramisco. O branco leva 80 por cento de Malvasia de Colares.
Mil e sessenta e nove hectares, depois doze
O livro Os Vinhos de Colares, de 1938, registou 1069 hectares de vinha na região. No final dos anos 1990 restavam cerca de 12.
Hoje andam pelos 22 hectares.
A Adega Regional de Colares foi fundada em 1931 e é a cooperativa mais antiga do país. Continua a engarrafar perto de metade do vinho da região.
Bucelas e o Arinto
Bucelas fica 25 quilómetros a norte de Lisboa, no vale do Trancão, em solos argilo-calcários de encosta. Nenhuma outra denominação portuguesa se dedica só a vinho branco.
O vinho leva no mínimo 75 por cento de Arinto. Os outros 25 por cento podem ser Esgana Cão, que na Madeira se chama Sercial, e Rabo de Ovelha.
Shakespeare menciona-o em Henrique VI com o nome de charneco. Na Guerra Peninsular, Wellington levou-o para Inglaterra, onde ficou conhecido por Lisbon Hock e chegou à mesa de Jorge III.
Durante décadas, quase todo o DOC Bucelas que chegava ao mercado saiu de uma casa só, as Caves Velhas de João Camilo Alves. Em 2010 a vila recebeu o título de Capital do Arinto.
Carcavelos quase desapareceu
Carcavelos é vinho generoso, travado com aguardente, doce e de cor âmbar. As castas são o Galego Dourado, o Ratinho, o Arinto e o Boal, com Castelão no tinto.
O Marquês de Pombal tinha aqui a sua quinta, em Oeiras. Em 1769 o vinho já aparecia num catálogo de leilão da Christie's, em Londres.
No século XX, a urbanização entre Lisboa e Cascais comeu a vinha quase toda. Os primeiros cinco hectares foram replantados em 1983, na antiga quinta de Pombal.
Em Outubro de 2024 a denominação tinha 32 hectares. A Villa Oeiras, projecto da Câmara de Oeiras com a Estação Agronómica Nacional, ocupa cerca de 20 desses e faz à volta de 60 mil garrafas por ano.
Em Cascais, a câmara recuperou 2,7 hectares em Santa Maria do Mar. A vindima de 2021 foi a primeira ali em quinze anos.
As outras seis
Alenquer está abrigada do Atlântico pela Serra de Montejunto e dá os tintos mais concentrados da região.
Torres Vedras fica do lado ocidental da mesma serra, apanha o vento e faz brancos secos e vinho leve. Óbidos é terra de espumante. Arruda dos Vinhos fica no interior, a norte de Bucelas, e desde 2002 pode usar Cabernet Sauvignon e Syrah.
A Lourinhã é denominação de aguardente vínica, criada pelo Decreto-Lei 34/92, de 7 de Março. Não há outra em Portugal, e na Europa só Cognac e Armagnac têm estatuto equivalente.
Falta Encostas d'Aire, a norte, a maior das nove em área de vinha.
À mesa
Um Arinto de Bucelas com quatro ou cinco anos serve bacalhau, ameijoas e petiscos fritos melhor do que um branco novo de qualquer outro sítio. Servir a 10 ou 12 graus.
Um Colares tinto tem taninos duros em novo e só assenta ao fim de dez ou quinze anos. Vale a pena perguntar pela colheita antes de pedir.
O Carcavelos bebe-se ao fim da refeição, com doçaria de ovos ou com queijo curado. A Villa Oeiras envelhece-o cerca de dez anos em madeira.
As cartas de vinhos são diferentes nas duas casas de fado, no Chiado e em Alfama. Entre as duas há 12 vinhos da região de Lisboa, Bucelas incluído: a carta está aqui e as mesas reservam-se aqui.