Fado ao Carmo

Os Santos Populares e o fado: a festa que une tudo

Fado

Elevador da Bica a subir uma rua de Lisboa · The Bica funicular climbing a Lisbon street

Em junho Lisboa muda de sítio. A cidade sai de casa e passa um mês na rua, com o pico na noite de 12 para 13, véspera de Santo António. É a noite em que coincidem as marchas, os casamentos e os arraiais.

13 de junho

É feriado municipal de Lisboa. Santo António nasceu na cidade, por volta de 1195, e morreu em Pádua a 13 de junho de 1231.

Foi canonizado a 30 de maio de 1232, onze meses depois de morrer, na catedral de Espoleto, pelo Papa Gregório IX. É a segunda canonização mais rápida da história da Igreja. Ainda hoje é padroeiro principal de Lisboa.

As marchas começaram num cinema

Havia marchas em Lisboa desde o século XVIII, mas o concurso é de 1932.

O primeiro realizou-se na noite de 12 de junho de 1932, no cinema Capitólio, no Parque Mayer, organizado por José Leitão de Barros, director do Notícias Ilustrado, com apoio de Norberto de Araújo e do Diário de Lisboa. Campo de Ourique ganhou, seguido do Bairro Alto e do Alto do Pina.

Duas semanas depois houve segundo evento, na véspera de São Pedro. Ao longo das duas noites de 1932 concorreram seis bairros: Campo de Ourique, Bairro Alto, Alto do Pina, Madragoa, Alfama e Alcântara.

A Câmara Municipal integrou as marchas em 1934. Em 1952 começaram a descer a Avenida da Liberdade, que é onde continuam.

Durante o Estado Novo houve interrupções, ligadas à Guerra Civil de Espanha, à Segunda Guerra e à crise do pós-guerra. Em quarenta e dois anos fizeram-se dezoito edições. O desfile anual regular só foi retomado em 1988.

Hoje a organização é da EGEAC e concorrem vinte marchas, além das infantis e das fora de concurso.

Os casamentos

Juntaram-se às marchas em 1958, por proposta do jornalista Augusto Pinto, organizados e financiados pelo Diário Popular. A primeira edição casou trinta e seis casais.

Foram interrompidos depois de 1974 e retomados em 2004 pela Câmara Municipal. Fazem-se a 12 de junho, com cerimónia civil nos Paços do Concelho e religiosa na Sé.

Onde entra o fado

Não há estudo que ligue os dois géneros, e não vale a pena inventar um. O que há são três coincidências que dizem tudo.

A primeira é geográfica. Alfama, Bairro Alto, Madragoa e Mouraria são ao mesmo tempo os bairros do fado e os bairros das marchas, desde 1932. São as mesmas ruas e a mesma gente.

A segunda é cronológica. A institucionalização das marchas, entre 1932 e 1934, é contemporânea da proliferação das casas de fado no Bairro Alto e da profissionalização dos fadistas.

A terceira tem nome próprio. Alfredo Marceneiro, o maior compositor de fados tradicionais do século XX, compôs a Marcha do Alfredo Marceneiro. O Museu do Fado lista-a entre as suas criações, ao lado do Fado Cravo e do Fado Bailado.

Quem cantava fado nas casas de fado do bairro escrevia marchas para o bairro sair à rua. Não eram mundos separados.

A sardinha

A sardinha entrou nas festas por uma razão pouco romântica: em junho era abundante e era barata.

A época vai de junho a outubro. A sardinha mais gorda é a do fim da época, em setembro e outubro, quando o peixe já teve tempo de constituir reservas antes da desova de inverno, que decorre de outubro a abril com pico entre dezembro e fevereiro. A de junho é a que se come, não a que tem mais gordura.

A pesca é gerida em conjunto por Portugal e Espanha, com um máximo de cento e oitenta dias por embarcação por ano, proibição ao fim de semana, paragens sazonais entre dezembro e abril, e tamanho mínimo de desembarque de onze centímetros.

Come-se em cima de uma fatia de pão, que serve de prato e absorve a gordura. É prática corrente nos arraiais, embora a origem do costume não esteja documentada.

O que muda em Alfama

Alfama concorre às marchas desde 1932 e é dos bairros de arraial mais procurados da cidade. Durante as festas as ruas estreitas enchem, e as mesas saem para a rua.

O programa muda de ano para ano e é a EGEAC que o publica. A nossa casa de fado em Alfama fica na Travessa do Almargem, dentro do bairro, e a do Chiado a quinze minutos a pé. Há fado nas duas todas as noites, incluindo em junho. As mesas reservam-se aqui.

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Há fado ao vivo todas as noites, no Chiado e em Alfama. As salas são pequenas e enchem quase sempre, por isso vale a pena reservar com dias de antecedência.

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