A região do Moscatel de Setúbal foi demarcada em 1907 e regulamentada por decreto no ano seguinte. É a segunda região demarcada mais antiga de Portugal, a seguir à do Douro, e fica do outro lado do Tejo, a sul de Lisboa.
1907
A demarcação saiu em 1907. O regulamento de produção e comércio veio em 1908, assinado por D. Manuel II, o último rei de Portugal.
Há registos de vinho de moscatel na península desde o século XIII. A demarcação não inventou nada. Pôs uma fronteira à volta de uma coisa que já lá estava há seiscentos anos.
A denominação de origem chama-se Setúbal. No rótulo aparece quase sempre Moscatel de Setúbal, que é o nome por que todos lhe chamam.
Duas castas, e uma quase desapareceu
O Moscatel de Setúbal é a Moscatel de Alexandria, também conhecida por Moscatel Graúdo. É a casta branca da região e a base de quase tudo o que se engarrafa.
A outra é o Moscatel Roxo, de bago mais pequeno e película rosada. Depois da filoxera, no século XIX, ficou quase sem vinha plantada. A José Maria da Fonseca voltou a plantá-la e outros produtores seguiram atrás.
Hoje o Roxo ocupa pouco mais de 40 hectares em toda a região. Nasceu nas encostas norte da Arrábida, em calcário. Nos anos 80 foi levado para as areias de Palmela, para dar resposta à procura.
O regulamento exige um mínimo de 85 por cento de Moscatel no mosto.
O passo que distingue este moscatel
A fermentação é travada com aguardente vínica, entre 52 e 86 por cento de álcool. O açúcar que ainda não fermentou fica no vinho. Até aqui é o que se faz no Porto e em Jerez.
O que é de Setúbal vem a seguir. Depois de fortificado, o vinho fica a macerar com as películas das uvas durante cinco a seis meses.
As películas do moscatel são onde estão os aromas. O álcool extrai-os melhor do que o mosto sozinho. É daí que vem o cheiro a casca de laranja e a passa que se reconhece de olhos fechados.
A lei não fixa a duração desta maceração. Cada produtor decide quanto tempo a faz, e nenhum a dispensa.
Superior, 20 anos, 40 anos
O envelhecimento mínimo é de 18 meses em madeira. Era de dois anos.
A menção Superior exige cinco anos e aprovação em prova. As indicações de idade vão dos 10 aos 40 anos, e o número corresponde ao vinho mais novo do lote.
O vinho acabado fica entre 16 e 22 por cento de álcool. O açúcar ronda os 280 gramas por litro até aos 20 anos e chega aos 340 acima disso.
Um moscatel de cinco anos sabe a laranja, damasco e mel. Um de 40 anos é escuro, com passa, caramelo e noz, e a acidez continua lá por baixo a segurar tudo.
Calcário, areia e pouca chuva
A serra da Arrábida é calcária. O Parque Natural foi criado pelo Decreto-Lei 622/76, de 28 de julho, com cerca de 10.800 hectares, e o ponto mais alto é o Formosinho, a 501 metros.
As encostas viradas a norte apanham a brisa atlântica. É aí que a uva chega madura sem perder acidez.
Para o interior o solo muda para areia. O clima é mediterrânico e chove entre 400 e 500 milímetros por ano, menos de metade do que cai no Minho.
Azeitão e Pegões
A José Maria da Fonseca foi fundada em 1834, em Vila Nogueira de Azeitão. O fundador nasceu em Vilar Seco, Nelas, a 31 de maio de 1804. A marca Moscatel de Setúbal é de 1849 e o Periquita de 1850.
A Adega de Pegões é outra história. A Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões nasceu em 1958, dentro do colonato de Pegões. Não houve outro colonato do Estado Novo a sul do Tejo.
O colonato começou em 1938, com 204 casas construídas numa herdade de 7.000 hectares. A cooperativa tem hoje à volta de 90 associados e 1.117 hectares de vinha, em areias que ali se chamam Pliocénio de Pegões.
Como se serve
A garrafa de moscatel guarda-se em pé, ao contrário de quase todas as outras. É a recomendação da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal.
O depósito que se junta no fundo é normal e vem da idade.
Como aperitivo, serve-se a 10 ou 12 graus. Com sobremesa, entre 12 e 16. Frio a mais tapa o aroma, que é exactamente aquilo por que se está a pagar.
Com que sobremesas
Com queijo de Azeitão. É leite cru de ovelha coalhado com flor de cardo, a Cynara cardunculus, e cura 20 dias a 10 ou 12 graus. Vem da mesma serra que o vinho.
Com doces de ovos e de amêndoa, a regra é o vinho ter de ser mais doce do que a sobremesa. Um moscatel jovem perde para uma tarte de amêndoa. Um de 20 anos aguenta.
Com chocolate preto, o Moscatel Roxo dá-se melhor do que o branco, por ser mais fino e menos doce na boca.
O Fado ao Carmo tem duas casas em Lisboa, no Chiado e em Alfama, com cartas de vinhos diferentes, e há moscatel e outros vinhos da península de Setúbal nas duas. As mesas reservam-se aqui.