A região demarcada do Douro nasceu de um alvará de 10 de setembro de 1756. É a mais antiga região demarcada e regulamentada do mundo, e durante dois séculos quase tudo o que ali se fez foi vinho do Porto.
1756
O alvará foi assinado em nome de D. José I e criou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Quem a montou foi Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário de Estado, mais tarde Marquês de Pombal.
O problema era comercial. Os preços tinham caído e o vinho vendido aos comerciantes britânicos andava adulterado, entre outras coisas com baga de sabugueiro para lhe dar cor.
A Companhia ficou com o monopólio do comércio e com a autoridade para separar o vinho de feitoria, que podia ser exportado, do vinho de ramo, que ficava para consumo interno.
Os marcos de granito
A demarcação foi gravada em pedra. Em 1758 foram colocados 201 marcos nos limites da área de feitoria. Em 1761 juntaram-se-lhes mais 134.
São 335 ao todo, cada um com a palavra Feitoria e a data. São de granito, numa região que é quase toda de xisto. Muitos continuam de pé, e o Museu do Douro fez o levantamento em 2006, nos 250 anos da demarcação.
Três sub-regiões
A serra do Marão passa dos 1400 metros e trava as nuvens que vêm do Atlântico. Daí os invernos frios e os verões secos, e a chuva a cair de 1200 milímetros a poente para 380 a nascente.
O Baixo Corgo fica a poente do rio Corgo, a partir do Peso da Régua. É o mais pequeno e o mais chuvoso, com 45 mil hectares de área e 13.204 de vinha.
O Cima Corgo organiza-se à volta do Pinhão, com 95 mil hectares e 20.427 de vinha. É daqui que sai a maior parte dos Portos de quinta.
O Douro Superior estende-se para nascente até à fronteira. É o maior, com 110 mil hectares, e o que tem menos vinha, 10.077.
Ao todo são cerca de 250 mil hectares, 43.700 de vinha e 20 mil viticultores, a 2,2 hectares de média cada.
Socalcos, patamares e vinha ao alto
O solo é xisto pré-ordovícico, que absorve calor durante o dia e o devolve à noite. Os socalcos antigos são estreitos e irregulares, suportados por muros de xisto assente a seco, com uma ou duas linhas de videiras cada. Não entra ali máquina nenhuma.
No final dos anos 60 apareceram os patamares, plataformas de terra com talude e sem muro, a 3000 ou 3500 pés por hectare. A vinha ao alto planta as linhas no sentido do declive, a subir a encosta em vez de a cortar, leva 4500 a 5000 pés e permite trabalhar com guincho até 40 por cento de inclinação.
Em dezembro de 2001 a UNESCO classificou o Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial: 24.600 hectares classificados e uma zona tampão de 225.400.
O benefício
Nem toda a uva do Douro pode dar vinho do Porto. Cada parcela é pontuada por idade da vinha, altitude, exposição, declive, solo, castas e produtividade.
A pontuação dá uma letra. Acima de 1200 pontos é A. Abaixo de 399 é F.
A letra determina quanto mosto daquela parcela pode ser fortificado em cada colheita. Esse limite chama-se benefício, muda todos os anos, e o que sobra é vinificado como vinho tranquilo.
As castas
Em 1981, João Nicolau de Almeida apresentou na Ramos Pinto os resultados de um estudo sobre as castas da região. Escolheu cinco tintas e três brancas.
As tintas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Tinto Cão. As brancas: Rabigato, Viosinho e Arinto.
A Touriga Franca chamou-se durante anos Touriga Francesa e é um cruzamento de Touriga Nacional com Mourisco Tinto. Jancis Robinson descreveu-a como o Cabernet Franc para o Cabernet Sauvignon que é a Touriga Nacional.
A Tinta Roriz é a mesma casta a que em Espanha chamam Tempranillo e no Alentejo Aragonez. O Tinto Cão está documentado no Douro desde o século XVI e rende tão pouco que esteve perto de desaparecer.
1952
Fernando Nicolau de Almeida foi a Bordéus em 1950 estudar as fermentações. O que trouxe de lá foi o arrefecimento do mosto, que em Portugal não se praticava.
Em 1952 vinificou uvas da Quinta do Vale Meão, no Douro Superior, para a Casa Ferreirinha. Não havia cubas com controlo de temperatura, por isso mandou construir um depósito de parede dupla e encheu o vão com gelo. O gelo vinha de Matosinhos. Sobre a distância até à quinta deixou uma frase que ficou: é mais difícil ir ao Meão do que a Luanda.
Saiu daí o Barca Velha, o primeiro tinto do Douro feito com a ambição de um grande vinho de mesa. Não se declara todos os anos; nos que não chegam, o vinho sai como Reserva Especial Ferreirinha. Nicolau de Almeida trabalhou até 1987 e declararam-se oito colheitas no seu tempo.
Ler um rótulo do Douro
A denominação de origem Douro para vinhos tranquilos só foi criada e regulamentada em 1982, 226 anos depois da demarcação que deu fama ao Porto.
A sub-região raramente aparece no rótulo. O nome da quinta aparece quase sempre, e a quinta diz onde é. Régua para Baixo Corgo, Pinhão para Cima Corgo, Foz Côa para Douro Superior. O Baixo Corgo dá tintos com menos álcool e mais acidez, o Douro Superior os de maior concentração.
Entre as duas casas, no Chiado e em Alfama, a carta tem vinte vinhos do Douro, tintos e licorosos. As cartas não são iguais nas duas. As mesas reservam-se aqui.