
Quem nunca foi a uma casa de fado costuma chegar com uma pergunta por fazer: o que é que se pode e não se pode. A resposta curta é que há uma regra que é da tradição e várias que são de cada casa. Em baixo ficam as duas coisas, e também como é aqui.
A única regra que é mesmo do fado
Cala-se enquanto se canta. É a norma que atravessa todas as casas de fado de Lisboa e a única que não é negociável.
Não é etiqueta por etiqueta. O fado faz-se com uma voz, uma viola e uma guitarra portuguesa, sem amplificação pesada. Uma conversa a meia dúzia de mesas de distância ouve-se no palco e tapa a guitarra, que é o instrumento mais frágil da sala. Uma pessoa a falar estraga o fado à sala inteira.
A fórmula que abre a noite, "silêncio que se vai cantar o fado", não tem autor conhecido nem data. Ficou pelo uso.
Como é no Fado ao Carmo
Quando o fado vai começar, baixamos as luzes, fechamos as portas e corremos as cortinas.
O serviço pára. Não entram nem saem pratos, ninguém atravessa a sala, ninguém passa à frente de quem está a cantar. Fica tudo quieto até ao fim do conjunto de fados.
Depois as luzes voltam, serve-se, fala-se. Mais à frente fecha-se outra vez.
Fazemos assim por respeito pelo fado e por quem o canta e o toca. É também o que deixa ouvir uma guitarra portuguesa sem amplificação, que é como ela foi feita para se ouvir.
Pode gravar com o telemóvel. Só pedimos o som desligado e o flash desligado.
Nada disto é preciso decorar antes de chegar. Quando a noite começa, explica-se sozinha.
Quando se aplaude
No fim de cada fado, não durante.
E não se bate palmas ao ritmo, ao contrário do que se faz em quase toda a outra música popular portuguesa. Marcar o compasso com as mãos desalinha quem está a tocar e obriga o fadista a cantar contra a sala.
Um fadista canta habitualmente três ou quatro fados de seguida e sai. O aplauso longo é no fim desse conjunto.
Cantar por cima não
Mesmo quem saiba a letra. A não ser que o fadista convide expressamente, o que acontece poucas vezes e sempre por iniciativa dele.
Há um sítio onde a regra é outra: o fado vadio. Aí não há cartaz nem contratação, e quem canta convida-se a si próprio, sem repertório combinado. Pratica-se em tascas e colectividades de bairro, sobretudo na Mouraria e em Alfama, e é um ambiente diferente de uma casa de fado.
Fotografias e telemóveis
Aqui não há tradição nenhuma a invocar. Não existe norma do fado sobre isto, nem no Museu do Fado nem na inscrição da UNESCO. O que existe é a política de cada casa, e varia.
O mínimo comum é flash desligado e som desligado. O flash cega quem está a cantar a três metros. O toque de um telemóvel a meio de um fado ouve-se na sala inteira, pela mesma razão acústica que obriga ao silêncio.
Se tiver dúvidas, pergunte à casa quando se sentar. Ninguém leva a mal.
O que vestir
Não há código. As casas de fado nasceram em tabernas e casas de má fama nos bairros junto ao rio, e nunca foram sítios de etiqueta.
O preto que vê no palco é outra coisa. O vestido preto e o xaile das fadistas costumam ser explicados como luto pela Severa, morta em 1846. Não há fonte que o sustente. O Museu do Fado atribui a convenção a Amália Rodrigues, que fixou o uso sistemático do preto e do xaile, e também o hábito de a fadista se colocar à frente dos guitarristas. É uma decisão de palco do século XX.
A que horas chegar
Come-se primeiro e ouve-se depois. Quem chega em cima da hora do fado janta com pressa ou janta depois.
Nas nossas casas de fado o fado começa às 20h30 no Chiado e às 21h00 em Alfama. Uma hora antes é margem confortável.
Quanto tempo dura
Uma noite de fado não é um concerto com hora de fim marcada. Alternam-se fadistas, há pausas entre conjuntos de fados, e a sala vai e volta ao silêncio várias vezes.
O Chiado fecha à 01h00 e Alfama às 02h00. Ninguém é empurrado para a porta.
Não é preciso perceber
Nem a letra nem a língua. A inscrição da UNESCO descreve o fado como uma síntese multicultural, com raízes em danças cantadas afro-brasileiras, géneros locais e tradições rurais trazidas pelas migrações internas para Lisboa. É música feita de várias coisas ao mesmo tempo, e ouve-se antes de se entender.
As mesas reservam-se aqui.