Portugal tem mais de duzentas castas próprias. O Instituto da Vinha e do Vinho fala em cerca de 250 castas autóctones, e um estudo da AICEP coloca o país em terceiro lugar mundial em diversidade de variedades. Estas três chegam para perceber o resto.
Cerca de 250
O número não está fechado. Antero Martins, professor do Instituto Superior de Agronomia e coordenador da Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira, declarou ao IVV que "há várias dezenas de castas que não estão ainda referenciadas".
A maior parte fica onde foi plantada e nunca chega a um rótulo. Três saíram da aldeia: a Baga, a Touriga Nacional e o Aragonez.
Baga
A Baga ocupa 8.258 hectares em Portugal, 4 por cento da superfície vitícola nacional. Cerca de 3.500 desses hectares estão na Bairrada.
O bago é pequeno e de casca grossa, e é da casca que vem o tanino. A acidez natural anda entre 6 e 7 gramas por litro. Amadurece tarde, cerca de duas semanas depois do Castelão, e é sensível à podridão numa região onde chove em setembro.
Daí a fama de difícil. Um ano mau dá um vinho duro. Um ano bom dá um vinho que aguenta vinte anos e ganha cedro, ervas e fruta seca.
A Bairrada em cinco datas
1766: o Marquês de Pombal manda arrancar vinhas em Anadia e Mogofores para dar lugar a cereal.
1867: António Augusto de Aguiar desenha o mapa do Paiz Vinhateiro da Bairrada, com três sub-regiões.
1890: na Escola Prática de Viticultura e Pomologia da Bairrada, em Anadia, José Tavares da Silva faz as primeiras experiências de espumantização em Portugal.
1979: a Portaria n.º 709-A/79, de 28 de dezembro, cria a Região Demarcada da Bairrada, com limites praticamente iguais aos de Aguiar, 112 anos antes. Exige um mínimo de 50 por cento de Baga nos tintos.
2003: aparece a menção Clássico, também com um mínimo de 50 por cento de Baga.
Luís Pato e Filipa Pato
Luís Pato fez o primeiro vinho em 1980. Em 1985 começou a desengaçar e a estagiar em madeira francesa, num sítio onde não se fazia nem uma coisa nem outra.
Em 1999 saiu da denominação de origem e passou a engarrafar como Vinho Regional Beiras. Continuou a fazer Baga, já sem a regra que o obrigava a isso.
Filipa Pato, filha, trabalha com o marido William Wouters e tem avisado que a casta está a ser abandonada na região a um ritmo rápido.
Em 2012 os dois juntaram-se a outros produtores e criaram os Baga Friends, hoje oito: com eles, Quinta das Bágeiras, Quinta da Vacariça, Quinta de Baixo/Niepoort, Sidónio de Sousa, Vadio e Giz.
Touriga Nacional
O Dão e o Douro reclamam os dois a origem da casta, e a Wines of Portugal não decide entre eles. A referência antiga que o catálogo Vine to Wine Circle cita é a classificação de Lobo, de 1790, que situa a casta no Douro e nas Beiras.
São 13.032 hectares em Portugal, 7 por cento da área vitícola nacional, o que faz dela a terceira casta mais plantada do país. No Douro é a quarta, com 3.993 hectares.
Casca grossa, carregada de cor e de tanino. Cachos pequenos, rendimentos sempre baixos.
Em 1981, João Nicolau de Almeida e o tio José Ramos Pinto Rosas apresentaram um estudo de castas do Douro e escolheram cinco tintas como as mais apropriadas para o vinho do Porto: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Tinto Cão. A região seguiu a lista.
Aragonez, ou Tinta Roriz
Dois nomes portugueses, uma casta. Tinta Roriz no Douro e no Dão, Aragonez no Alentejo e a sul.
Em Espanha chama-se Tempranillo, de temprano, cedo, pela maturação precoce.
Em 2012, Javier Ibáñez e uma equipa espanhola publicaram no American Journal of Enology and Viticulture a paternidade da variedade: Albillo Mayor e Benedicto, duas castas espanholas.
São 20.884 hectares em Portugal, 11 por cento da área vitícola nacional. É a casta mais plantada do país. No Douro ocupa 6.496 hectares e é a segunda da região.
Entra quase sempre em lote. Com Touriga Nacional e Touriga Franca no Douro, com Trincadeira e Alicante Bouschet no Alentejo.
Porque muda o nome
As castas foram baptizadas por quem as plantou, antes da ampelografia e muito antes do ADN. Um vale não sabia como o vale seguinte chamava à mesma planta.
A Baga tem mais de vinte sinónimos registados, entre eles Poeirinho, Tinta da Bairrada, Carrega Burros e Paga Dívidas.
Em 2000 a Touriga Francesa passou oficialmente a Touriga Franca, por não ter ligação nenhuma a França.
O Castelão aparece em muita conversa como Periquita, nome da Cova da Periquita, propriedade de Azeitão comprada por José Maria da Fonseca em 1846. Periquita é marca registada desde 1941.
Do outro lado do Minho, o Alvarinho chama-se Albariño.
À mesa
A Baga pede gordura. Leitão, cabrito, pato. A acidez e o tanino fazem aí um trabalho que um tinto macio não faz.
A Touriga Nacional em monocasta traz cor, flor e estrutura, e aguenta caça e queijos curados. O Aragonez é o mais dócil dos três e o que menos se dá a notar quando está em lote.
O Fado ao Carmo tem duas casas de fado em Lisboa, no Chiado e em Alfama, com cartas de vinhos diferentes e só de vinhos portugueses. Entre as duas cartas há 35 vinhos com estas castas, e a lista está aqui. As mesas reservam-se aqui.