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Bifanas: o outro lado da gastronomia portuguesa

Gastronomia

Fachada amarela com varandas de ferro, numa rua de Lisboa · Yellow façade with iron balconies on a Lisbon street

Carne de porco, pão e um molho que cada casa guarda para si. A sandes que explica o país tão bem como o bacalhau.

A palavra

Bifana vem de bife mais o sufixo -ana. O dicionário da Porto Editora define-a como um pequeno bife de porco, temperado com alho e outros condimentos, frito e servido no pão.

São quatro elementos: porco, alho, fritura e pão. Tudo o resto muda de terra para terra, e é aí que começa a discussão.

Vendas Novas

Vendas Novas fica no distrito de Évora, na estrada que durante décadas levou Lisboa a Badajoz. Era ponto de paragem, e é a essa paragem que quase todas as fontes atribuem a bifana como hoje se conhece.

A origem não está documentada em nenhum papel. Em 2018, a câmara municipal calculava que a sandes teria cerca de cinquenta anos e que teria começado numa cozinha particular, sem nome nem data.

Em 2011, o município registou a marca Bifanas de Vendas Novas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, para travar as imitações que apareciam pelo país.

A primeira Feira da Bifana fez-se de 18 a 20 de maio de 2018, no ano em que Vendas Novas completou 25 anos de cidade. Nove casas certificadas estiveram na estreia. Na terceira edição, de 20 a 22 de maio de 2022, eram oito.

A câmara contabiliza cerca de um milhão de bifanas servidas por ano nas casas certificadas do concelho.

Cinco ingredientes

A receita das bifanas de Vendas Novas cabe em cinco linhas: lombo de porco, sal, alho, margarina e pão.

A carne é lombo e só lombo, batida até ficar muito fina. Frita-se em frigideiras de ferro fundido, feitas de propósito para aguentarem o serviço.

A margarina não se troca entre bifanas. Vai apurando ao longo do dia, com o alho a largar para ali, e os bocados que ficam queimados tiram-se à mão. Quanto mais bifanas passam pela frigideira, melhor fica o molho.

Não leva vinho, não leva colorau e não leva louro. O segredo de que as casas falam, e que umas dizem existir e outras dizem não existir, é sobretudo este método.

Em Vendas Novas, Carla Rico, Paula Estróia e Luís Silva estão à frente de três das casas mais procuradas. Luís Silva abriu a sua em 1997.

A escola do Porto

No Porto, a bifana é outra coisa. A carne vai em lascas finíssimas ou desfiada, e o molho é picante e abundante.

As receitas do Porto levam colorau, piri-piri, cominhos, vinho branco, banha, e há quem junte cerveja, polpa de tomate e vinho do Porto. O molho manda, e o pão serve para o apanhar.

O dicionário regista a variante em separado: no Porto, a carne desfiada em molho, servida no pão próprio da cidade.

A Conga, na Rua do Bonjardim, 318, ao lado do Rivoli, serve bifanas há mais de 35 anos e o molho dela é o exemplo que se cita quando se quer explicar a diferença.

A marinada do resto do país

Fora destas duas escolas, a bifana faz-se com marinada de véspera. Alho esmagado, vinho branco, louro, colorau ou massa de pimentão, por vezes um pouco de vinagre, sal e pimenta.

A carne sai da perna ou da pá, cortada em bifes finos, e fica a marinar horas. Depois vai à frigideira com a própria marinada, que reduz e vira molho.

Ao balcão, aparece com mostarda ao lado, e por vezes com piri-piri. O pão vai ao molho antes de fechar a sandes.

O pão

O pão é praticamente o mesmo em todo o país e muda de nome de região para região. Papo-seco e carcaça em Lisboa e a sul, molete no Porto e no norte, bijou no vale do Tejo, bico em Coimbra e Mira, vieirinha nas Caldas da Rainha.

É um pãozinho de miolo branco e macio, com côdea fina e um vinco ao meio, que se come no próprio dia.

Em Vendas Novas há um detalhe que raramente se conta: as casas concorrem entre si nas bifanas, mas compram o pão à mesma padaria, a Panificadora de Vendas Novas.

O pão tosta-se de leve por fora e mantém-se mole por dentro. Tem de aguentar o molho sem se desfazer antes da última dentada.

Tascas, cervejarias e arraiais

A bifana não nasceu em restaurantes. Nasceu ao balcão, em tascas e cervejarias, para se comer de pé e em cinco minutos, com uma imperial ou um copo de tinto ao lado.

Depois passou para as festas populares, para os arraiais de junho e para as bancadas dos estádios, onde continua a ser a comida que se vende em maior número.

Em 2012, Anthony Bourdain filmou uma bifana n'O Trevo, na Praça Luís de Camões, em Lisboa, para o No Reservations. O sítio passou a ter fila.

Em maio de 2025, a McDonald's Portugal voltou a pôr a McBifana no menu. Poucos pratos portugueses fizeram esse percurso.

Rei e Rainha da Bifana

A Feira da Bifana tem uma prova de comer com regra fixa: quem come mais bifanas em dez minutos.

A 7 de setembro de 2025, Nuno Alvito comeu oito bifanas em dez minutos e ficou Rei da Bifana. Daniela Valério e Marisa Marques comeram três e meia cada uma e dividiram o título de Rainha.

Oito bifanas em dez minutos dão setenta e cinco segundos por sandes, pão incluído.

O Fado ao Carmo tem duas casas de fado em Lisboa, no Chiado e em Alfama, com ementas diferentes, cozinha portuguesa e uma carta só de produtos portugueses. As mesas reservam-se aqui.

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